🌻🧩 Quando uma injustiça tira o meu sono 😴
Sobre autismo, sensibilidade, empatia e a necessidade de entender
"Ser autista, para mim, também é viver algumas situações com uma intensidade que nem sempre é fácil explicar."
É perder o sono por causa de uma injustiça que nem sequer aconteceu comigo.
É ficar pensando em uma situação que presenciei, imaginando o que poderia ter sido feito diferente, por que alguém agiu daquela maneira ou por que outra pessoa precisou passar por aquilo.
É sentir que alguma coisa está errada e não conseguir simplesmente "deixar para lá".
Recentemente, vi uma publicação falando sobre isso e me reconheci imediatamente. Pensei: "Sou exatamente assim."
Mas, olhando para trás, percebo que isso não começou agora.
"Não era rebeldia. Eu precisava entender."
Quando eu era criança, muitas vezes recebia broncas ou advertências e precisava saber o motivo. Eu precisava entender.
Não era simplesmente uma questão de rebeldia ou de querer desafiar os adultos. Se alguém dizia que eu estava errada, eu queria saber: por quê?
Qual era a regra?
O que eu fiz de errado?
Por que aquilo era considerado errado?
O que eu deveria ter feito diferente?
Para mim, entender fazia toda a diferença.
Uma bronca sem explicação parecia injusta. Uma regra sem sentido parecia impossível de aceitar. Eu precisava encontrar uma lógica para aquilo.
Hoje, depois de adulta e depois de compreender melhor o meu funcionamento autista, consigo olhar para algumas dessas experiências de outra maneira.
Talvez eu não estivesse simplesmente sendo "difícil".
Talvez eu estivesse tentando organizar o mundo.
A necessidade de entender e a incerteza
A necessidade de previsibilidade e a dificuldade em lidar com a incerteza são aspectos estudados na literatura científica sobre o autismo.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada na revista científica Autism encontrou uma associação consistente entre a chamada intolerância à incerteza e a ansiedade em pessoas autistas.
Isso não significa que todas as pessoas autistas vivenciem essas situações da mesma maneira. Cada pessoa é única. Mas esses estudos ajudam a compreender por que situações imprevisíveis, sem explicação ou aparentemente incoerentes podem ser especialmente desgastantes para algumas pessoas autistas.
Fonte: Revisão sistemática sobre intolerância à incerteza e ansiedade no autismo .
Quando a ficção também dói
E existe ainda outra parte dessa história: a minha sensibilidade diante do sofrimento.
Eu posso assistir a um filme e saber perfeitamente que aquilo é ficção.
Sei que os personagens não são reais. Sei que a história foi escrita por alguém. Sei que aquela cena foi criada para provocar uma emoção.
Mas saber que não é real não significa que eu não vá sentir.
Às vezes, uma cena me atinge de tal maneira que eu fico genuinamente mal. Posso sentir angústia, tristeza, indignação. Posso continuar pensando naquilo depois que o filme termina.
A razão sabe que é ficção.
Mas a emoção não parece receber o mesmo aviso.
E a empatia? Talvez a história seja mais complexa
Durante muito tempo, existiu uma visão bastante simplificada de que pessoas autistas teriam pouca empatia. A pesquisa científica, porém, apresenta um cenário muito mais complexo.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, reunindo 226 estudos, encontrou diferenças importantes dependendo de como a empatia é avaliada. O trabalho também reforça que a empatia não pode ser reduzida simplesmente à ideia de "falta de empatia".
Em algumas medidas analisadas, pessoas autistas apresentaram maior sofrimento pessoal diante das emoções de outras pessoas. Isso ajuda a lembrar que existem diferentes formas de sentir, processar e demonstrar empatia.
Talvez a pergunta não seja apenas:
"A pessoa autista sente empatia?"
Talvez precisemos perguntar:
"Como essa pessoa sente, processa e demonstra aquilo que sente?"
Porque existem muitas formas de sentir.
E talvez algumas pessoas autistas sintam profundamente, mas tenham dificuldade para traduzir essa intensidade em palavras ou em comportamentos que os outros reconheçam imediatamente como empatia.
Fonte: Revisão sistemática e meta-análise sobre empatia no autismo .
O meu desafio: sentir sem carregar o mundo
No meu caso, às vezes parece que eu não consigo simplesmente assistir a uma injustiça e seguir a vida como se nada tivesse acontecido.
Meu cérebro continua ali.
Meu coração continua ali.
A história continua dentro de mim.
E isso pode ser bonito, porque significa que existe em mim um forte senso de justiça e uma sensibilidade genuína diante da dor do outro.
Mas também pode ser cansativo.
Porque nem toda injustiça é minha responsabilidade.
Nem todo sofrimento precisa ser carregado por mim.
Nem toda história precisa continuar ocupando espaço dentro da minha cabeça depois que termina.
Talvez parte do meu processo de autoconhecimento esteja justamente em aprender essa diferença.
Olhar para trás com mais compreensão
Entender que sentir profundamente não é um defeito.
Que precisar de explicações não significa ser rebelde.
Que questionar não significa querer confrontar.
E que ter um senso de justiça muito forte pode ser uma característica bonita — desde que eu também aprenda a cuidar de mim enquanto o mundo continua sendo, muitas vezes, tão injusto e tão incompreensível.
Hoje, quando olho para a menina que tantas vezes perguntava "mas por quê?", sinto vontade de dizer a ela:
"Você não era apenas uma criança difícil. Você precisava entender o mundo para conseguir se sentir segura dentro dele."
E talvez essa seja uma das coisas que o autoconhecimento me trouxe: a possibilidade de revisitar a minha própria história e perceber que, por trás de muitos comportamentos que um dia foram chamados de "rebeldia", "exagero" ou "sensibilidade demais", existia uma pessoa tentando, do jeito que conseguia, compreender o mundo.
E talvez, em alguns momentos, o mundo também precise aprender a compreender pessoas como nós.
📚 Referências e leituras científicas
Empatia no autismo:
Revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, reunindo 226 estudos.
Consultar estudo no PubMed
Intolerância à incerteza e ansiedade no autismo:
Revisão sistemática e meta-análise publicada na revista científica
Autism.
Consultar estudo completo
Este texto tem caráter informativo e reflexivo. As experiências relacionadas ao autismo são individuais e não representam todas as pessoas autistas.







