7/23/2026

🌻🧩 Quando uma injustiça tira o meu sono 😴

quinta-feira, julho 23, 2026 0 Comentários

 


Sobre autismo, sensibilidade, empatia e a necessidade de entender

"Ser autista, para mim, também é viver algumas situações com uma intensidade que nem sempre é fácil explicar."

É perder o sono por causa de uma injustiça que nem sequer aconteceu comigo.

É ficar pensando em uma situação que presenciei, imaginando o que poderia ter sido feito diferente, por que alguém agiu daquela maneira ou por que outra pessoa precisou passar por aquilo.

É sentir que alguma coisa está errada e não conseguir simplesmente "deixar para lá".

Recentemente, vi uma publicação falando sobre isso e me reconheci imediatamente. Pensei: "Sou exatamente assim."

Mas, olhando para trás, percebo que isso não começou agora.

"Não era rebeldia. Eu precisava entender."

Quando eu era criança, muitas vezes recebia broncas ou advertências e precisava saber o motivo. Eu precisava entender.

Não era simplesmente uma questão de rebeldia ou de querer desafiar os adultos. Se alguém dizia que eu estava errada, eu queria saber: por quê?

Qual era a regra?

O que eu fiz de errado?

Por que aquilo era considerado errado?

O que eu deveria ter feito diferente?

Para mim, entender fazia toda a diferença.

Uma bronca sem explicação parecia injusta. Uma regra sem sentido parecia impossível de aceitar. Eu precisava encontrar uma lógica para aquilo.

Hoje, depois de adulta e depois de compreender melhor o meu funcionamento autista, consigo olhar para algumas dessas experiências de outra maneira.

Talvez eu não estivesse simplesmente sendo "difícil".
Talvez eu estivesse tentando organizar o mundo.

A necessidade de entender e a incerteza

A necessidade de previsibilidade e a dificuldade em lidar com a incerteza são aspectos estudados na literatura científica sobre o autismo.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada na revista científica Autism encontrou uma associação consistente entre a chamada intolerância à incerteza e a ansiedade em pessoas autistas.

Isso não significa que todas as pessoas autistas vivenciem essas situações da mesma maneira. Cada pessoa é única. Mas esses estudos ajudam a compreender por que situações imprevisíveis, sem explicação ou aparentemente incoerentes podem ser especialmente desgastantes para algumas pessoas autistas.

Fonte: Revisão sistemática sobre intolerância à incerteza e ansiedade no autismo .

Quando a ficção também dói

E existe ainda outra parte dessa história: a minha sensibilidade diante do sofrimento.

Eu posso assistir a um filme e saber perfeitamente que aquilo é ficção.

Sei que os personagens não são reais. Sei que a história foi escrita por alguém. Sei que aquela cena foi criada para provocar uma emoção.

Mas saber que não é real não significa que eu não vá sentir.

Às vezes, uma cena me atinge de tal maneira que eu fico genuinamente mal. Posso sentir angústia, tristeza, indignação. Posso continuar pensando naquilo depois que o filme termina.

A razão sabe que é ficção.

Mas a emoção não parece receber o mesmo aviso.

E a empatia? Talvez a história seja mais complexa

Durante muito tempo, existiu uma visão bastante simplificada de que pessoas autistas teriam pouca empatia. A pesquisa científica, porém, apresenta um cenário muito mais complexo.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, reunindo 226 estudos, encontrou diferenças importantes dependendo de como a empatia é avaliada. O trabalho também reforça que a empatia não pode ser reduzida simplesmente à ideia de "falta de empatia".

Em algumas medidas analisadas, pessoas autistas apresentaram maior sofrimento pessoal diante das emoções de outras pessoas. Isso ajuda a lembrar que existem diferentes formas de sentir, processar e demonstrar empatia.

Talvez a pergunta não seja apenas:

"A pessoa autista sente empatia?"

Talvez precisemos perguntar:

"Como essa pessoa sente, processa e demonstra aquilo que sente?"

Porque existem muitas formas de sentir.

E talvez algumas pessoas autistas sintam profundamente, mas tenham dificuldade para traduzir essa intensidade em palavras ou em comportamentos que os outros reconheçam imediatamente como empatia.

Fonte: Revisão sistemática e meta-análise sobre empatia no autismo .

O meu desafio: sentir sem carregar o mundo

No meu caso, às vezes parece que eu não consigo simplesmente assistir a uma injustiça e seguir a vida como se nada tivesse acontecido.

Meu cérebro continua ali.

Meu coração continua ali.

A história continua dentro de mim.

E isso pode ser bonito, porque significa que existe em mim um forte senso de justiça e uma sensibilidade genuína diante da dor do outro.

Mas também pode ser cansativo.

Porque nem toda injustiça é minha responsabilidade.

Nem todo sofrimento precisa ser carregado por mim.

Nem toda história precisa continuar ocupando espaço dentro da minha cabeça depois que termina.

Talvez parte do meu processo de autoconhecimento esteja justamente em aprender essa diferença.

Olhar para trás com mais compreensão

Entender que sentir profundamente não é um defeito.

Que precisar de explicações não significa ser rebelde.

Que questionar não significa querer confrontar.

E que ter um senso de justiça muito forte pode ser uma característica bonita — desde que eu também aprenda a cuidar de mim enquanto o mundo continua sendo, muitas vezes, tão injusto e tão incompreensível.

Hoje, quando olho para a menina que tantas vezes perguntava "mas por quê?", sinto vontade de dizer a ela:

"Você não era apenas uma criança difícil. Você precisava entender o mundo para conseguir se sentir segura dentro dele."

E talvez essa seja uma das coisas que o autoconhecimento me trouxe: a possibilidade de revisitar a minha própria história e perceber que, por trás de muitos comportamentos que um dia foram chamados de "rebeldia", "exagero" ou "sensibilidade demais", existia uma pessoa tentando, do jeito que conseguia, compreender o mundo.

E talvez, em alguns momentos, o mundo também precise aprender a compreender pessoas como nós.

Entre o silêncio e a cor,
sigo aprendendo a compreender quem eu sou.

📚 Referências e leituras científicas

Empatia no autismo:
Revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, reunindo 226 estudos.
Consultar estudo no PubMed

Intolerância à incerteza e ansiedade no autismo:
Revisão sistemática e meta-análise publicada na revista científica Autism.
Consultar estudo completo

Este texto tem caráter informativo e reflexivo. As experiências relacionadas ao autismo são individuais e não representam todas as pessoas autistas.

6/22/2026

🌻 Quando o mundo pesa demais: a sobrecarga invisível de uma mulher autista

segunda-feira, junho 22, 2026 0 Comentários


Um relato íntimo sobre ansiedade, diagnóstico tardio e o desafio de ser cuidadora da mãe com Alzheimer enquanto tenta sobreviver às próprias demandas.


Há dias em que sinto que minha cabeça vai explodir! Não de raiva, mas de tudo o que tento segurar. Ser uma mulher autista, diagnosticada tardiamente, é como descobrir que vivi metade da vida tentando decifrar um idioma que não era o meu. Eu aprendi a observar, a imitar, a me adaptar. E, por fora, parecia funcionar. Mas por dentro, o ruído nunca parou.

Agora, adulta, com uma vida cheia de demandas e uma mãe com Alzheimer que depende de mim, o peso se tornou físico. A ansiedade não é mais apenas uma sensação — é uma presença constante, uma vibração no peito, um nó que não se desfaz. Cuidar de quem amo enquanto tento cuidar de mim é um paradoxo cruel. Há dias em que o amor me move, e outros em que ele me esgota.


4/20/2026

🌻Carta Aberta:

segunda-feira, abril 20, 2026 0 Comentários

🌋🔥 O Turbilhão Que Me Habita 🔥🌋 

Meu cérebro anda assim: um turbilhão. Ideias se atropelam, crises se anunciam e duram horas, às vezes dias. Já pensei se novas avaliações neuropsicológicas mostrariam algum avanço depois do diagnóstico e da terapia. Mas a verdade é que parece que nada tem adiantado.

A vida que levo, com a mente e os transtornos que me acompanham, me gera pavor. Tenho medo de colapsar a qualquer momento; não só mentalmente, mas fisicamente também.

Carrego relações fracassadas, ainda teimando por amor a pessoas que não movem um dedo para tentar me compreender. O esforço diário de simplesmente querer acordar amanhã passa despercebido por todos. E eu, cada vez mais, me sinto sem condições de escolher, decidir ou acreditar que algo pode mudar. Quem dirá, melhorar.

Falam sobre a luz no fim do túnel. Mas para mim, essa luz parece cada vez mais distante, quase impossível de alcançar. Se depender apenas de mim, tudo piora. Porque não me sinto em condições de conduzir nada. Só em Deus confio.

Às vezes penso em anestesiar a dor, desaparecer, encontrar paz. Mas até isso parece inalcançável.

Este texto não é uma mensagem de esperança. É apenas um sincero desabafo.

  • Reflexão Final

Esta é uma carta aberta de um cérebro em colapso. Um testemunho cru de quem habita um turbilhão constante, entre crises e silêncios que parecem não ter fim.

Não escrevo para oferecer respostas, nem para suavizar a dor. Escrevo porque preciso dar voz ao que me consome. Escrevo porque sobreviver, às vezes, é apenas resistir mais um dia. É um tipo de terapia.

Se alguém se reconhecer nestas palavras, que saiba: não está sozinho. O que me mantém tentando e lutando em favor de mim mesma é a fé que nunca morre. É crer que Deus renova minhas forças, ainda que eu não perceba.

O turbilhão que me habita pode ser também o turbilhão que habita você. E talvez, nesse reconhecimento, exista uma forma mínima de luz; não no fim do túnel, mas no ato de compartilhar a escuridão.

É como darmos as mãos, fazermos uma oração e crer que, se chegamos até aqui, ainda que fracos fisicamente e mentalmente, temos a certeza de que nossas forças Deus renova diariamente. Vamos nos manter conectados a Ele para que atravessemos mais um dia lutando.


“Mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças. Sobem com asas como águias; correm e não se cansam, caminham e não se fatigam.” Isaías 40:31

 


 


2/27/2026

🌻Hiperempatia e Doorslam: Quando o Cuidado se Torna um Peso 🔒✨

sexta-feira, fevereiro 27, 2026 0 Comentários

Sentir profundamente é um dom, mas também pode ser um fardo. A hiperempatia nos conecta às emoções dos outros de forma intensa, quase como se carregássemos suas dores e alegrias dentro de nós. Essa sensibilidade cria vínculos genuínos, mas também nos expõe ao desgaste emocional quando não há reciprocidade.

O peso da hiperempatia

Absorver sentimentos alheios pode gerar sobrecarga.

Muitas vezes, quem sente demais acaba se responsabilizando por problemas que não são seus.

Sem limites claros, a hiperempatia se transforma em exaustão e frustração.

O mecanismo do doorslam

Para alguns, o doorslam surge como resposta natural: fechar a porta de vez para evitar mais dor.

Não é apenas se afastar temporariamente, mas cortar o vínculo de forma definitiva.

É um ato de autoproteção, uma forma de preservar a própria saúde emocional.

Embora possa parecer radical, muitas vezes é a única saída para interromper ciclos de desgaste.

Autoproteção não é egoísmo

É importante compreender que estabelecer limites não significa falta de amor ou compaixão. Pelo contrário: cuidar de si é essencial para continuar cuidando dos outros de forma saudável.

Dizer “não” é um ato de coragem.

Fechar portas pode ser doloroso, mas também é libertador.

O equilíbrio está em aprender a proteger-se antes que seja necessário um corte definitivo.

Caminhos para o equilíbrio

Comunicação clara: expressar necessidades e limites antes que a situação se torne insustentável.

Autocuidado consciente: reservar tempo para si, sem culpa.

Reconhecer padrões: perceber quando a hiperempatia está levando ao esgotamento e agir preventivamente.


✨ Conclusão ✨

A hiperempatia é uma força poderosa, mas precisa de limites para não se transformar em peso. O doorslam, embora duro, é uma forma legítima de sobrevivência emocional. Se você já precisou fechar portas, saiba: proteger-se é um ato de amor próprio.