Trabalhar ou Estudar? Ou os Dois? Dilemas Reais para Jovens Autistas
A decisão entre estudar, trabalhar ou fazer os dois ao mesmo tempo parece simples pra muita gente. Mas pra quem é autista, isso ganha camadas invisíveis — que pesam no corpo, na mente e nas emoções. Eu sei bem como é. Eu senti na pele.
Em alguns momentos da minha vida, tentei dar conta de tudo: escola, curso, trabalho... Ainda me casei cedo, grávida, sem ter terminado os estudos, e desempregada. Casei com quatro meses de gestação, no segundo ano do ensino médio. Parei de estudar e me dediquei à casa, ao marido, à gestação… e eu? Fui ficando de lado.
Depois que meu filho nasceu, fiquei um ano cuidando da casa e da família. Voltei a trabalhar, mas era muito sacrificante. Minha mãe e meu marido ajudavam, mas logo engravidei novamente — e precisei parar de trabalhar de novo. Parecia que eu vivia um jogo com fases imprevisíveis, mas sem saber quais botões apertar.
E olha… não era só cansaço. Era confusão mental, exaustão sensorial, crises silenciosas e um sentimento constante de que eu tava sempre devendo algo pra todo mundo — menos pra mim.
- Desafios que enfrentei (e que sei que muita gente enfrenta também):
1. Excesso de demandas
Estudar e trabalhar parece algo “normal”, mas pra quem já gasta energia só pra processar o básico do dia, isso pode ser um colapso anunciado.
2. Rotinas imprevisíveis
Troca de turno, professor substituto, chefe que muda a escala em cima da hora... Tudo isso desestabilizava o meu mundo.
3. Falta de compreensão
Nem todo professor ou chefe entende quando a gente precisa de um tempo a mais, de um ambiente silencioso, ou de uma explicação mais clara.
4. Preconceito e subestimação
Já ouvi que eu era “lerda”, que precisava “acordar pra vida”. Mas ninguém via o esforço diário que eu fazia pra simplesmente existir em meio ao caos.
5. Desorganização e cansaço extremo
Quando a mente tá sobrecarregada, até montar uma agenda vira um desafio. O cansaço não vinha só do que eu fazia — mas de tudo o que eu tentava suportar.
- Algumas coisas que me ajudaram (e que talvez ajudem você também):
Conhecer meus limites
Não sou fraca por precisar de pausas. Sou forte por reconhecer isso e me respeitar.
Buscar flexibilidade
Cursos EAD, trabalhos com horários mais leves ou que respeitam minhas pausas fizeram toda a diferença.
Dividir o peso
Meio período, alternar dias, focar em uma coisa de cada vez. Às vezes, menos é mais — e mais sustentável também.
Ter apoio
Contar com um terapeuta, um familiar, alguém que me ajudasse a montar e manter uma rotina me deu mais chão pra caminhar.
Usar ferramentas visuais
Agenda física, Google Agenda, alarme no celular, quadro de tarefas… tudo que me ajuda a ver o tempo, me ajuda a viver melhor nele.
Concluindo…
Se você é neurodivergente e sente que viver “normalmente” é pesado, tá tudo bem. Você não está sozinho.
E não precisa seguir o mesmo caminho que os outros pra chegar onde você quer.
Cada passo no seu tempo. E com respeito ao seu jeito de ser.

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