4/08/2025

🌻Transição para a Vida Adulta I 😟


Quando o mundo espera que você decida tudo... e você mal sabe por onde começar... 

♾️

O peso das escolhas quando se é neurodivergente 

Quando a gente é adolescente, parece que todo mundo começa a perguntar: 

“E aí, já sabe o que vai ser quando crescer?” 

Essa pergunta, que soa tão inofensiva pra muitos, me atravessava como uma flecha.

Lembro da confusão que era dentro de mim. O mundo esperando que eu tomasse grandes decisões — carreira, faculdade, futuro — e eu mal conseguia entender o que eu realmente gostava ou dava conta de fazer. Me sentia perdida num mar de possibilidades, enquanto todo mundo ao meu redor parecia já ter escolhido um caminho.

E não era só isso. Ainda tinha a pressão sobre relacionamentos — namoros, ficantes, ou a sensação de que você deveria estar “vivendo intensamente”, indo pra baladas, ficando com alguém, se jogando na vida… Mesmo quando aquilo tudo nem fazia sentido pra mim.

Na época, eu ainda não sabia que era autista. Só sentia que havia algo “errado” comigo, que eu era “diferente”, talvez “menos capaz”. As pessoas diziam que era só insegurança ou drama, mas por dentro, era como se eu estivesse tentando montar um quebra-cabeça sem ter visto a imagem da caixa.

Hoje eu entendo: o que pra muitos já é uma fase difícil, pra nós, neurodivergentes, pode ser ainda mais confuso, solitário e angustiante.

As primeiras tentativas e as primeiras quedas

Quando chegou a hora do primeiro emprego, fui sem entender muito bem como funcionava aquele ambiente: soldar componentes eletrônicos aos 13 anos. Nunca tinha visto aquilo na vida. Ficávamos em umas 7 ou 8 pessoas, numa sala, cada um em seu ferro de solda. Eu pouco falava! A comunicação, as regras implícitas, os olhares, os julgamentos... Eu não sabia exatamente o que me deixava tão desconfortável, mas sabia que não queria estar ali. Cada dia parecia um esforço gigante pra "parecer normal", e mesmo assim, eu sempre achava que estava fazendo tudo errado. Todos almoçávamos na mesma hora, o que, com o tempo, facilitou a interação

As sobrecargas sensoriais, me lembro até hoje o cheiro da solda, os respingos que queimavam as mãos. A rádio era "travada"; não  dava para mudar de estação. Me lembro ainda que era 102 FM, o som baixo, tipo som ambiente, isso ajudava a me manter tranquila. As sobrecargas emocionais eram constantes, mas eu não sabia dar nome pra aquilo. Achava que era frescura, que eu precisava “amadurecer”. E quando pensava em estudar, então? Eu comecei estudando de manhã e trabalhando na parte da tarde. Depois, passei a trabalhar o dia todo e estudar a noite, mas para isso, precisei mudar da escola que eu estudava desde sempre. Frequentar uma sala cheia de gente nova, me adaptar a horários, correrias e provas... Tudo isso me causava ansiedade, mesmo sem eu entender o porquê. Eu simplesmente deixei de entrar na sala de aula e perdi um ano. No outro, conheci uma menina que passou pelo mesmo que eu, assim ficamos amigas. Uma motivava a outra a seguir em frente.

O que teria feito diferença?

Hoje, depois de tanto caminhar (e tropeçar), entendo algumas coisas que poderiam ter mudado minha história — e talvez possam ajudar outras pessoas que estejam nessa fase agora:


1. Se conhecer antes de decidir

Ter alguém que ajude a entender seus interesses, seus limites, seu jeito de ser. Não dá pra escolher uma profissão sem antes olhar pra dentro.


2. Buscar ambientes que respeitem o seu tempo

Faculdade tradicional não é a única porta. Existem cursos técnicos, online, práticas mais livres. Cada um tem seu ritmo.


3. Ter apoio emocional e prático

Um mentor, um psicólogo, um grupo com quem conversar sobre as dúvidas e os medos. Só de não se sentir sozinho, tudo já muda.


4. Validar seu tempo e seu caminho

Nem todo mundo segue a mesma linha do tempo. Você não está atrasado — só está vivendo do seu jeito, no seu ritmo.


Conclusão: você não precisa saber tudo agora.

Se eu pudesse voltar e falar com a Dea adolescente, diria: tá tudo bem não saber ainda. Vai com calma. Se escuta. Não tenta caber num molde que não foi feito pra você.

Esse é o primeiro post de uma série sobre a transição pra vida adulta sendo neurodivergente. No próximo, vou compartilhar como foi a fase de estudar e trabalhar ao mesmo tempo, e como isso afetou meu corpo, minha mente e minha autoestima.

Se você se identificou, comenta aqui ou compartilha com alguém que precisa ouvir isso. Estamos juntos nessa jornada — entre o silêncio e a cor.


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