A adolescência já é um período complicado; de mudanças intensas, e para adolescentes autistas, essas transformações podem ser ainda mais desafiadoras. A pressão social, as exigências acadêmicas e o impacto das alterações hormonais podem tornar essa fase difícil. Muitas vezes, sinais de TEA que passaram despercebidos na infância ficam mais evidentes nessa fase. para qualquer um, mas para neurodivergentes, pode ser ainda mais difícil. Nos anos 80 e 90, quando pouco se falava sobre autismo, TDAH e outras condições, as dificuldades eram vistas como "defeitos de personalidade". Sem um diagnóstico, sem acolhimento e sem internet para buscar informações, muitos de nós crescemos achando que o problema éramos nós.
Aqui estão 10 desafios comuns que neurodivergentes enfrentam na adolescência, misturados com a minha própria experiência.
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1. Bullying e isolamento social
. Muitos adolescentes autistas sofrem bullying por suas diferenças na comunicação e comportamento.
. A dificuldade em entender ironias e piadas pode torná-los alvo de gozações.
Eu nunca me encaixei nos grupos. Sempre me sentia diferente, mas não sabia exatamente o porquê. Minha forma de falar, meus interesses (eu fui fã de Cyndi Lauper e queria ser igual a ela, inclusive e principalmente no visual total dela 🥰). Daí o cabelo, as roupas, o jeito que eu andava, tentava dançar, cantar, tudo era motivo de piada. O bullying não ficava só na escola, ele seguia para casa, onde as pessoas achavam que eu "exagerava", broncas do pai, ele dizia que eu tinha que me vestir como uma "menina normal" e deixar os cabelos longos, a mãe dizia que "todo mundo passava por isso, era fase". Mas a verdade é que não, nem todo mundo passava...
🤔🧠👀
2. Dificuldade em entender e lidar com emoções
. Mudanças hormonais intensificam dificuldades emocionais e crises.
. Emoções como frustração e ansiedade podem ser mais difíceis de regular.
Eu sentia tudo de forma intensa, muuuuiitooo intensa! Mas não sabia como expressar. A raiva, a tristeza e a frustração vinham como ondas que eu não conseguia controlar. Às vezes, eu explodia, outras vezes me fechava completamente. Sem um diagnóstico, eu apenas achava que tinha algo de errado comigo.
🗣️💬🫂
3. Problemas na comunicação e interação social
.Dificuldade em manter conversas, entender indiretas e expressões faciais.
.Pode se sentir deslocado em grupos ou evitar interações por medo de errar.
Conversas eram um labirinto. Eu não entendia indiretas, não pegava ironias, e sempre falava a verdade de forma direta, o que incomodava as pessoas. Isso me fez aprender a praticamente não falar. Muitas vezes, eu ficava em silêncio para evitar errar, mas isso só me fazia parecer ainda mais estranha.
🚨👂🏻🔇🫸🏻📳👃🏻
4. Sobrecarga sensorial intensificada
. Cheiros, barulhos, luzes e toques podem ser ainda mais incômodos.
. Locais como escolas, festas e transportes públicos podem causar crises.
Barulhos altos, luzes fortes, cheiros muito intensos… tudo me incomodava, mas ninguém entendia. Me mandavam "parar de frescura" ou me obrigavam a permanecer em lugares onde eu sentia meu corpo inteiro em alerta, prestes a entrar em colapso.
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5. Desafios na escola e na aprendizagem
. Pode ter dificuldades em organização, interpretação de textos ou em acompanhar o ritmo das aulas.
. Algumas matérias podem ser extremamente difíceis, enquanto outras são dominadas com facilidade.
Eu tinha muita facilidade para algumas matérias e extrema dificuldade para outras. Meus cadernos eram um caos, eu não conseguia acompanhar as anotações no quadro, copiar sempre foi um problema e ouvir explicações longas me fazia perder a concentração. Como não havia apoio, tudo se resumia a "você não está se esforçando o suficiente".
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6. Pressão para ser independente
. Expectativas de que o adolescente já "deveria saber" fazer certas coisas podem gerar grande estresse.
. Tarefas como pegar ônibus sozinho, administrar dinheiro ou planejar horários podem ser complicadas.
Esperavam que eu soubesse lidar com tudo sozinha. Pegar ônibus, lembrar de compromissos, organizar meu material escolar… mas muitas vezes, eu esquecia, me perdia ou ficava travada sem saber por onde começar. Em vez de ajuda, recebia broncas e mais pressão.
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7. Dificuldade em relacionamentos afetivos
. Pode não perceber sinais de interesse romântico ou não saber como expressar seus sentimentos.
. Relacionamentos podem ser desafiadores devido a dificuldades na leitura de emoções do outro.
Eu não sabia identificar quando alguém gostava de mim. Se alguém me tratava bem, eu achava que era só educação, ou quando era realmente educação, em excesso, pessoas mais carinhosas; eu achava que poderia ser interesse. Se alguém flertava de brincadeira, eu levava ao pé da letra. E quando eu me interessava por alguém, não sabia como agir. Isso me tornava vulnerável a pessoas mal-intencionadas, que percebiam minha inocência e se aproveitavam disso. Quase todos os meus relacionamentos foram tóxicos, os mais longos, todos eles! Sofri abuso sexual na pré adolescência, por não entender o quão pesada era a tal "brincadeira".
😮💨🥹🙂↕️😤🤢😝
8. Maior risco de ansiedade e depressão
. A sobrecarga emocional e o sentimento de inadequação podem levar a crises de ansiedade ou depressão.
. A falta de compreensão por parte da família e amigos agrava a situação.
Sem entender minhas dificuldades, fui acumulando frustrações e dores que ninguém via. Também tinha medo de falar e sair de "tonta" (o que mais ouvi em família "menina tonta") por outros de fora. Aos poucos, fui acreditando que não tinha valor, que nunca ia me encaixar. Pensamentos autodestrutivos passaram a fazer parte da minha rotina, e como ninguém falava sobre isso, eu achava que era só fraqueza minha.
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9. Desafios no primeiro emprego
. O ambiente de trabalho pode ser confuso e exaustivo, principalmente sem instruções claras.
. Dificuldades em lidar com mudanças repentinas ou feedbacks não diretos.
Meu primeiro emprego foi um pesadelo. Trabalhava de manhã e estudava a noite, com 13/14 anos. Era trabalho manual, aprendi direitinho e tudo bem. O problema veio quando recebi, fui ao salão de cabeleireiro na HR do almoço e esqueci de voltar. 😁 Tava tão feliz pelo momento, que só foquei naquilo. Em áreas de escritório, as regras não eram claras, as pessoas se comunicavam de forma indireta e eu sempre me sentia perdida. O medo de errar me travava, e quando eu perguntava algo, diziam que "era óbvio". Mas nada era óbvio para mim.
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10. Identidade e autoestima
. A busca por identidade pode ser ainda mais intensa, principalmente para meninas autistas.
. Muitos se sentem "fora do padrão" e têm dificuldade em se aceitar como são.
Com tanto julgamento, também fui crescendo sem saber quem eu era de verdade. Eu tentava mudar para me encaixar, mas sempre me sentia deslocada. Meu jeito, meus gostos, minha forma de ver o mundo… tudo parecia errado. Foi só depois do diagnóstico que percebi que eu não precisava mudar, só precisava entender quem eu realmente era.
Como ajudar?
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Apoio familiar: Incentivar o diálogo e respeitar as necessidades sensoriais e emocionais.
Acompanhamento profissional: Terapia pode ajudar no desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais.
Escolas mais inclusivas: Professores e colegas precisam ser instruídos para promover um ambiente acolhedor.
A adolescência pode ser desafiadora, mas com apoio e compreensão, jovens autistas podem desenvolver suas habilidades e encontrar seu lugar no mundo.
🥰 O Que Eu Diria Para Minha Versão Adolescente? 🥰
Eu diria: "Você não está sozinha. Você não é errada. Você só vê o mundo de uma forma diferente, e isso é algo bonito, não um defeito."
Você passou por alguma dessas dificuldades? Compartilhe nos comentários!

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