Quando Eu Também Precisei Me Enxergar!
Durante muito tempo, mesmo sem saber que era autista, eu carregava dentro de mim um monte de ideias capacitistas — aquelas crenças que diminuem, invalidam ou julgam quem tem alguma deficiência ou condição neurodivergente. E o mais duro é admitir: eu também reproduzia isso, sem perceber. Não porque fosse cruel, mas porque cresci ouvindo e absorvendo coisas que hoje sei que eram injustas, erradas, desrespeitosas.
Na minha família, tudo que fugia do "normal" era visto como frescura, exagero ou até preguiça. Eu mesma tentava me moldar para caber nesse padrão, forçando o social, ignorando meus limites e acreditando que eu era o problema quando não conseguia. Só depois do diagnóstico e de muito mergulho interno é que a ficha foi caindo: eu era parte de uma engrenagem capacitista, mesmo estando do lado mais vulnerável dela.
E o mais louco? Ainda hoje é assim. Acho que só mudou mesmo para nós que vivenciamos a neurodivergência. Alguns poucos acolheram os diagnósticos com empatia, perguntando e querendo saber mais. Mas, no geral, foi aquilo de: “ah, nada a ver, você é normal”. Virei "normal" de uma hora para outra, num passe de mágica. Porque, até então, eu era a esquisita, a estranha, a ovelha negra da família, a que dava trabalho, a doidinha da turma, da escola, das amigas... A engraçada que fazia rir — sem nem entender o porquê.
Diziam que era meu jeito de falar, mas eu nunca entendi bem. Hoje sei: talvez a mistura do sotaque, minha ecolalia, esse jeito de repetir no mesmo tom e ritmo que ouvi, às vezes meio robótica, com pausas estranhas... Outras vezes, rápida demais, tagarela, cheia de gestos e mãos articuladas (estereotipias?). Eu ouvi MUITO: “menina tonta!”, “fulano é meio retardado”, “beltrano não bate bem”, “ciclano tem filho doente da cabeça”. Minha própria mãe ainda usa o termo “tantan”. E, assim, eu aprendi. Vi. Absorvi. E reproduzi.
Para minha surpresa — e ironia da vida — hoje estou eu e meu neto (e provavelmente muitos outros da família) nesse grupo dos neurodivergentes.
Quando recebi meu diagnóstico, falávamos em 1 para cada 36 pessoas no espectro autista. Agora, pouco tempo depois, já é 1 para cada 31. Ou seja: de um jeito ou de outro, dentro da família, no círculo de amigos ou colegas, vai ter alguém se descobrindo ou criando filhos neurodivergentes. Está cada vez mais perto de todos nós.
E não temos mais tempo a perder. Mesmo quem não vive isso na pele, precisa urgentemente se informar, buscar entender e, principalmente, incluir de verdade. Porque empatia não é só palavra bonita: é prática diária.


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