“Parece que tem uma agulha furando meus tímpanos.”
Foi com essa frase forte que eu descrevi o que sinto ao ouvir certos sons — como a microfonia de um microfone, por exemplo. E isso é só um entre tantos estímulos do dia a dia que, pra mim, são dolorosos.
A sobrecarga sensorial é real.
Não é exagero. Não é frescura.
É como se o mundo, em certos momentos, ficasse insuportavelmente alto, vibrante, pesado, pulsante demais.
Enquanto algumas pessoas conseguem conversar com a TV ligada e o celular tocando, eu escuto tudo ao mesmo tempo. Cada som compete por atenção e parece invadir meu cérebro sem pedir licença. Sons agudos me fazem sentir como se algo estivesse me perfurando por dentro. Já os sons muito graves vibram pelo corpo e me dão ânsia, tontura, vontade de vomitar. 🤢
As luzes piscando, coloridas ou muito fortes, me incomodam profundamente.
Gosto de cores — mas com equilíbrio. Gosto de tons escuros ou pastéis. O neon, o saturado, o brilho exagerado… me deixam com dor de cabeça, me tiram o foco.
Os cheiros também me afetam.
Aromas doces demais me causam náusea, dor de cabeça e até tontura. Por outro lado, cheiros cítricos, de frescor, me acalmam. É como se trouxessem ordem pro caos sensorial. Eu uso aromaterapia de forma intuitiva, e até uma pulseira difusora virou minha aliada.
E o toque?
Evito. Tolero. Mas não gosto.
Toques suaves demais me causam angústia. Toques inesperados, especialmente em multidões, me deixam desconfortável. E o pior: o suor das pessoas. Chegar perto de alguém suado me dá pavor. Até a água do chuveiro, quando bate nas minhas costas, pode causar cócegas que me fazem fugir, até o corpo acostumar.
Durante muito tempo, eu não entendia.
Não conseguia explicar o motivo do incômodo. Só sabia que queria sair de perto, fugir, me esconder.
Crises? Sim. Muitas!!!
Principalmente causadas pelos sons. E, mesmo quando eu conseguia evitar um meltdown, o shutdown sempre vinha depois — o colapso interno, o cansaço extremo, o silêncio forçado do corpo tentando se recompor.
Hoje eu tenho estratégias.
Saio de perto quando posso.
Uso abafadores de som, escuto músicas suaves (geralmente louvores), levo um fidget, busco o conforto que consigo carregar comigo.
Recentemente, ganhei do meu marido uma aliança que gira — isso me ajuda a focar, a me acalmar, a redirecionar minha atenção nos momentos difíceis.
Mas nem sempre eu estou preparada.
Às vezes, tudo que eu quero é silêncio. E isso é quase impossível dentro da rotina de casa, do dia a dia. Ainda mais sendo mulher, mãe, cuidadora, autista.
O julgamento das pessoas pesa.
- “Você não era assim.”
- “Agora tá frescurenta?”
- “Depois do laudo, parece que piorou...”
Essas frases me machucam porque ainda hoje, mesmo tentando explicar, as pessoas resistem a entender. E eu, que já segurei por tanto tempo pra parecer “normal”, acabo me frustrando por ainda esperar compreensão de onde não vem.
Meu colapso veio depois de anos segurando tudo!
A agressividade, as reações explosivas, os choros sem explicação — eram pedidos de socorro. Foi só aí que busquei ajuda profissional. A neuropsicopedagoga me ouviu, acolheu e sugeriu as avaliações.
O diagnóstico veio com nome, mas também com libertação. TEA, TDAH, ansiedade, burnout e até sinais de depressão. Tudo junto, tudo acumulado, tudo explodindo.
Se eu puder te deixar um recado, é esse:
Somos todos criados à imagem e semelhança de Deus.
Mas cada um com sua história, sua sensibilidade, seus traumas e limites.
Não somos “frescos”. Somos humanos. E diferentes.
Especialmente no espectro autista, onde não existe um padrão.
Ainda que no mesmo espectro, a gente sente diferente, percebe diferente, reage diferente.
Por isso, se você quer realmente amar o próximo como a ti mesmo…
Busque informação. Escute com empatia. Respeite o diferente.


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