Ser um adolescente neurodivergente já é desafiador hoje, mas nos anos 80 e 90, era ainda mais solitário. Naquela época, pouca gente falava sobre autismo, TDAH, dislexia ou qualquer outra condição que tornava o cérebro diferente da maioria. Para a sociedade, não existiam "neurodivergentes", apenas crianças "difíceis", "desajeitadas", "esquisitas" ou "rebeldes".
A escola era um ambiente hostil. O bullying não era levado a sério — era apenas "zoação de criança", e quem sofria que "aprendesse a se defender". Gostos incomuns, dificuldades de socialização e hipersensibilidades eram vistos como frescura ou motivo de piada. Muitos de nós crescemos sem entender por que parecíamos tão deslocados, sem um nome para o que sentíamos.
A Inocência e o Perigo dos Abusadores
A literalidade e a ingenuidade eram como um imã para pessoas mal-intencionadas. Sem entender malícia, sarcasmo ou manipulação, muitos neurodivergentes acabavam sendo alvos fáceis de abusadores. A confiança ingênua e a dificuldade de interpretar sinais sociais nos tornavam vulneráveis. O pior é que, naquela época, se falava ainda menos sobre abuso e segurança infantil. Se algo acontecia, era varrido para debaixo do tapete, e a vítima muitas vezes era culpabilizada.
O Peso da Falta de Diagnóstico
Sem um diagnóstico, sem explicações e sem apoio, muitos adolescentes neurodivergentes eram taxados de preguiçosos, dramáticos ou desinteressados. Dificuldade em matemática? Falta de esforço. Não conseguir copiar rápido do quadro? Distração. Precisar de um tempo sozinho para recarregar? Antissocial. O peso de não saber por que tudo parecia tão difícil levava muitos ao isolamento, à ansiedade e até à depressão.
Os Gostos "Errados"
A adolescência é uma fase em que a identidade começa a se formar, mas quando seus interesses não se encaixavam no que era considerado "normal", era um problema. Quem gostava de quadrinhos, animes, jogos de RPG ou música "estranha" era esquisito. Quem se vestia diferente ou falava de um jeito considerado "engraçado" virava piada. O bullying não parava nas escolas, continuava em casa, onde muitas famílias achavam que era "fase" ou "coisa de gente sem futuro".
O Silêncio e a Culpa
Com tantas dificuldades e sem uma rede de apoio, muitos neurodivergentes internalizaram o sofrimento. Pensamentos autodestrutivos eram comuns, mas não havia espaço para falar sobre isso. Psicólogos eram raridade, e terapia era vista como "coisa de maluco". O sofrimento era engolido, e a única saída era tentar se encaixar, mesmo que isso significasse sufocar quem realmente éramos.
O Que Mudou?
Hoje, temos mais informações e diagnósticos acessíveis, mas os desafios ainda existem. O bullying continua, o capacitismo persiste, e a saúde mental dos neurodivergentes ainda é negligenciada. Mas agora podemos dar nome às nossas diferenças, encontrar comunidade e exigir respeito.
Se eu tivesse tido acesso a tudo o que sei hoje, talvez minha adolescência tivesse sido diferente. Talvez eu tivesse me perdoado mais, me protegido mais e entendido que nunca houve nada de errado comigo.
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